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O mito da imparcialidade e o Escola sem Partido





 Um dos debates mais frequentes hoje na sociedade é o Escola sem Partido e a busca pela imparcialidade. Afinal, é possível ser imparcial ou "neutro"? Para responder essa questão, temos que construir um debate historiográfico.


Augusto Comte e o positivismo 


 Com a chegada da Revolução Industrial a Europa se tornou um caos. Pessoas começaram a se debruçar na questão social da Europa pós revolução industrial para entender o que estava acontecendo e buscar soluções para a resolução desses problemas. Uma das dessas pessoas foi Augusto Comte, considerado o pai do positivismo. Comte viu a necessidade de criar uma ciência para estudar a sociedade, o que viria ser a sociologia. Para isso, Comte se baseou nas ciências naturais para criar uma metodologia de estudo, ou seja, que, nesse sentido, a melhor metodologia para conhecer a vida social seria a mesma empregada para estudar a vida natural: a observação com objetividade científica – neutra, livre das ideologias. Ou seja, Comte tratou a ciência social como uma ciência natural, o que deu um caráter conservador para essa metodologia, pois concebeu fenômenos sociais como imutáveis e seus males inevitáveis. De maneira resumida: Comte propôs a criação de uma ciência para estudar a sociedade, na qual, o estudioso deveria ser neutro e imparcial. Mas será que isso é realmente possível?


O mito da imparcialidade 


 A imparcialidade como Comte propõem é impossível. Pois todo conhecimento está vinculado a uma dinâmica de poder e de inter-relações na sociedade. Ou seja, em qualquer opinião que nós damos está carregada de opinião, mesmo que você ache que não. Das coisas mais corriqueiras até o conhecimento produzido nas universidades passa por dinâmicas de interesses e dinâmicas de poder. Nessa dinâmica de poder, também entram questões de construção de conhecimento e questões biológicas. Afinal, o que significa imparcialidade? Imparcialidade significa não falar apenas uma parte de um determinado assunto. Contudo, é impossível. Já que o conhecimento está sempre sendo renovado e que uma pessoa não tem capacidade biológica de deter todo o conhecimento sobre aquele existe e a outra variação de significado é não tomar "parte" em um assunto. Contudo, isso é impossível, pois qualquer assunto a ser debatido parte de questões subjetivas da pessoa e que está enraizado em crenças. Quando você acredita em determinada coisa, tudo que você pensar ou emitir estará ligado a essa crença fundamental que reja a sua vida. Por exemplo, quando você tem a atitude de ler um livro do filósofo Adam Smith, você já está tomando partido de algo. Você lê o livro por querer entender mais de liberalismo (para criticar ou elogiar) e ao ler o livro, você terá duas tendências possíveis: já ler o livro com vontade de descordar ou com vontade de concorda re isso é fundamental na conclusão que você terá sobre o livro. O ato de você ler um livro ou estudar algum tema já detona a relação que você tem com o objeto de estudo, o que torna a imparcialidade impossível.


Exemplo cívico 


 Um dos grandes representantes da escola dos naturalistas, sem duvidas, é John Locke. Para Thomas Hobbes, o estado de natureza humana produz guerra e para isso seria necessário um Estado forte, parte conter as paixões humanas e evitar que todos se destruíssem. Para Locke, o problema é outro. Na realidade, o estado de natureza não produz guerra, mas sim parcialidade. Pois bem, para Locke uma pessoa comum não teria condições de fazer um julgamento justo. Mas por quê? Simples: pois suas paixões iriam atrapalhar o julgamento. Você iria condenar uma pessoa que você ama mesmo que ela fosse culpada? Mesmo que culpasse, iria dar a pena adequada ou uma pena branda? Você iria absorver uma pessoa que você odeia mesmo que ela fosse inocente? Locke acredita que não e é por isso que para o filósofo é essencial a criação de um Estado que julgue e puna, pois um juiz que não tenha nenhuma ligação com os julgados tem a tendência de fazer um julgamento mais justo possível. Ou seja, a nossa imparcialidade implica em qualquer decisão que tomamos na sociedade.

O projeto Escola sem Partido e suas contradições 


 O Programa Escola sem Partido, ou apenas Escola sem Partido, é um movimento político criado em 2004 no Brasil e divulgado em todo o país pelo advogado Miguel Nagib. Ele e os defensores do movimento afirmam representar pais e estudantes contrários ao que chamam de "doutrinação ideológica" nas escolas e pregam pela imparcialidade dos professores.

 Bem, como vimos é impossível ser imparcial. Então, será que o projeto realmente tem sentido ou validade? Acho que o eixo central dessa discussão é pensar sobre os movimentos por trás desse tipo de projeto. Sem sombras de duvidas, o grupo que tornou o projeto extremamente visível foi a Bancada Evangélica, que contraditoriamente, defende o ensino religioso nas escolas. Mas não o estudo de todas as religiões, mas de uma específica. Será que isso é ser imparcial? Vemos claramente, que a intenção do projeto não é tentar levar imparcialidade para sala de aula, mas sim acabar com o que dá sentindo a aula: a discussão e o debate político. Como já disse o filósofo Aristóteles: "somos animais políticos", logo, tudo que criamos é política e obviamente a matéria de História não ficaria de fora. É impossível querer separar qualquer disciplina de um pensamento político, pois a política é inerente a tudo que criamos. 



A "doutrinação marxista" e a banalização de conceitos 


 Dizer que existe uma doutrinação marxista é um completo delírio. O "ensino do marxismo" se quer existe na grade curricular das escolas. O problema é que nos dias é banalização dos conceitos. Qualquer um hoje pode ser um "fascista" ou um "comunista". Qualquer pensamento ou opinião, nos dias de hoje, podem ser consideradas como um pensamento comunista. Por exemplo, quando alguém fala sobre apoio as causas LGBT's é chamado de comunista, mesmo que não exista nenhuma teoria marxista que fale sobre os homossexuais. Quando um professor fala que os militares deram um golpe em 1964, já é chamado de doutrinador, pois segundo alguns o conceito correto é revolução. Porém, na ideia de conceitos o termo correto é golpe, pois o movimento aconteceu de dentro pra fora, não teve apoio mútuo da população, não foi um processo violento e não visava mudar radicalmente o status quo da sociedade. Em uma revolução, o movimento acontece de dentro pra fora, tem amplo apoio popular, visa mudar radicalmente a sociedade que é o caso da Revolução Cubana. Ou seja, os conceitos de golpe e revolução não sinônimos de algo bom ou ruim, como muitos pensam. São apenas conceitos. Fica claro que esse projeto é feito por pessoas que não fazem a ideia de como é a educação ou como é construído o conhecimento. Por fim, a imparcialidade não existe e o movimento "Escola sem Partido" é um movimento partidário-político que esconde suas reais intenções mascaradas de "neutralidade". 










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