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Mãe "fantasiou" o filho de escravo para festa de Halloween na escola




 A escravidão foi o episódio mais marcante e doloroso na História do Brasil. O tráfico negreiro ocorreu em todo o Oceano Atlântico entre os séculos XVI e XIX. Desembarcaram no Brasil, durante todo o período da escravidão, cerca de 1.700.000 de africanos para desempenharem trabalhos forçados. A escravidão foi abolida há quase 130 anos, mas será que o racismo também ficou pra trás na nossa História? Parece que não. 


 Uma mãe em uma escola de Natal "fantasiou" seu filho de escravo e postou a foto nas redes sociais declarando "vamos abrasileirar esse negócio" e a escola se pronunciou sobre o ocorrido:


 "Lamentavelmente, a escolha do traje para a participação do Halloween, feita pela família do aluno, tocou numa ferida histórica do nosso país. Amargamos as sequelas desse triste período até os dias de hoje. Não incentivamos nem compactuamos com qualquer tipo de expressão de racismo ou preconceito, tendo os princípios da inclusão e convivência com a diversidade como norte da nossa prática pedagógica", diz a nota.







A Herança da escravidão



 Em 14 de dezembro de 1890, Ruy Barbosa, o então Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Fazenda, assinou um despacho que autorizava queimar “todos os papéis, livros de matrícula e documentos relativos à escravidão, existentes nas repartições do Ministério da Fazenda”. Segundo ele, “a nação brasileira” precisava eliminar “do solo da pátria a escravidão”. O decreto que previa apagar dos arquivos os vestígios do escravismo brasileiro – o último sistema a se desmantelar nas Américas – foi duramente criticado à época e segue criticado até hoje. A destruição dos documentos, no entanto, não impediu que histórias da escravidão fossem construídas e estudadas.


 Historicamente, a escravidão persistiu como principal forma de trabalho no Brasil, durante o período em que o país foi colônia de Portugal e no período de pós independência. Durante mais de 300 anos, o trabalho escravo permaneceu como base da economia brasileira, sendo abolido em 13 de Maio de 1888 através da Lei Áurea,
assinada pela Princesa Isabel.


 Ano passado, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) realizou uma pesquisa que explicita que a população negra é mais violentada no Brasil. Comprovou-se que, a cada três assassinatos no país, dois deles são de negros. Além disso, obteve-se o dado de que a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio no Brasil é 3,7 vezes maior do que um branco.


A desigualdade ainda prevalece
 


 Segundo uma pesquisa feita pelo IBGE realizada em 500 empresas, negros e pardos ocupam só 10% dos cargos de chefia, diz pesquisa. O que é uma contradição, pois os negros representam a maioria da população brasileira, segunda o IBGE, 54% da população brasileira é negra. Muitos não sabem, mas é por isso que existe a lei de cotas. Em 2005, um ano após a implementação de ações afirmativas, apenas 5,5% dos jovens pretos ou pardos de 18 a 24 anos frequentavam uma faculdade. Em 2015, 12,8% dos negros na mesma faixa etária estão matriculados no ensino superior. A pesquisa foi divulgada nesta sexta-feira (2) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ou seja, em 10 anos esse número dobrou, mas ainda é muito baixo se você levar em conta que a maioria da população brasileira é negra. Muita gente não percebe, mas esses dados tem estreita relação com a escravidão.



A elite do Atraso 



 Autor do livro "A Elite do Atraso", Jesé de Souza, "as desigualdades no Brasil são herança da escravidão, não do Estado Corrupto". Para o autor, o que define a sociedade brasileira não é a "herança da corrupção de Portugal", mas sim a escravidão. O sociólogo classifica como “ridícula se não fosse trágica” a abordagem de Raymundo Faoro de que “a história do Brasil é a história da corrupção transplantada de Portugal e aqui exercida pela elite do Estado”. Jessé argumenta que os que apoiam essa interpretação dominante “parecem não se dar conta de que, em uma sociedade, cada indivíduo é criado pela ação diária de instituições concretas, como a família, a escola, o mundo do trabalho”.


 Segundo Jessé, a escravidão era a instituição que mais tinha poder sobre todas as áreas da sociedade e que se estende até os dias de hoje. O autor cria um termo para se referir aos brasileiros que hoje estão a margem da sociedade: “A ‘ralé de novos escravos’, que compõem mais de um terço da população, é explorada pela classe média e pela elite do mesmo modo que o escravo doméstico: pelo uso de sua energia muscular em funções indignas, cansativas e com remuneração abjeta”. Na opinião de Jessé, a elite econômica “é uma continuidade perfeita da elite escravagista” e continua condenando “os de baixo” à reprodução de sua miséria enquanto amplia o próprio “capital social e cultural”.



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Uma conclusão triste


 Podemos ver que, mesmo com a 130 anos de abolição da escravatura, nosso país carrega resquícios da escravidão. Seja nas periferias, nas redes sociais ou em cargos de trabalho. Muita das vezes, o racismo é silêncio e é difícil de conseguir
identificá-lo, mas não se iluda: ele existe.

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