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Há 43 anos atrás, Vladimir Herzog foi "suicidado"



 Há 43 anos atrás, o jornalista Vladmir Herzog foi assassinado no DOI-CODI, que fez parecer que o jornalista cometeu suicídio.

A perseguição


 
No ano de 1974, o general Ernesto Geisel tomava posse da presidência do país com o discurso de "abertura política, que na prática seria a diminuição da censura. Contudo, muitos militares eram contrários a essa ação. Nesse cenário, a linha dura sentiu-se ameaçada e 1975 a repressão continuava forte. O Centro de Informações do Exército (CIE) se voltou essencialmente contra o Partido Comunista Brasileiro, do qual Herzog era militante, mas não desenvolvia atividades clandestinas.


A prisão


 
Em 24 de outubro Herzog foi levado para prestar depoimentos. No dia seguinte, Herzog compareceu por vontade própria ao DOI-CODI, onde permaneceu preso. A partir daí, o pesadelo do jornalista começava.


A morte


 
No dia 25 de outubro as 15 horas da tarde o Serviço Nacional de Informações recebeu uma mensagem em Brasília de que o jornalista Vladimir Herzog tinha se suicidado no DOI/CODI/II Exército". Nesse momento era muito comum que o governo militar divulgasse que as vítimas de suas torturas e assassinatos haviam perecido por "suicídio", fuga ou atropelamento, o que gerou comentários irônicos de que Herzog e outras vítimas haviam sido "suicidados" pela ditadura. O jornalista Elio Gaspari comenta que "suicídios desse tipo são possíveis, porém raros. No porão da ditadura, tornaram-se comuns, maioria até." Conforme o Laudo de Encontro de Cadáver expedido pela Polícia Técnica de São Paulo, Herzog se enforcara com uma tira de pano - a "cinta do macacão que o preso usava" - amarrada a uma grade a 1,63 metro de altura. Ocorre que o macacão dos prisioneiros do DOI-CODI não tinha cinto, o qual era retirado, juntamente com os cordões dos sapatos, segundo a praxe naquele órgão. No laudo, foram anexadas fotos que mostravam os pés do prisioneiro tocando o chão, com os joelhos fletidos - posição em que o enforcamento era impossível. Foi também constatada a existência de duas marcas no pescoço, típicas de estrangulamento. Anos depois, em outubro de 1978, o juiz federal Márcio Moraes, em sentença histórica, responsabilizou o governo federal pela morte de Herzog e pediu a apuração da sua autoria e das condições em que ocorrera. Entretanto nada foi feito.Em 24 de setembro de 2012, o registro de óbito de Vladimir Herzog foi retificado, passando a constar que a "morte decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II Exército– SP (Doi-Codi)", conforme havia sido solicitado pela Comissão Nacional da Verdade. Em 2018, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil por negligência na investigação do assassinato do jornalista.

Símbolo

 Seis dias após a morte, a missa em memória de Vlado tornou-se um verdadeiro protesto contra os arbítrios do regime militar. O arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns dividiu o culto ecumênico em 31 de outubro de 1975 na Catedral da Sé com o rabino Henry Sobel e o reverendo protestante James Wright. Mais de 8 mil pessoas enfrentaram o medo e lotaram as escadarias da catedral e as ruas vizinhas da Praça da Sé. A repressão enviou quinhentos policiais para monitorar o ato. Em 1979, a Justiça brasileira condenou a União pelo assassinato de Vlado. Apenas em 2013, a família teve nas mãos uma nova certidão de óbito, na qual a morte foi registrada como resultado de “lesões e maus tratos” infligidos no “II Exército (DOI-CODI)”. Ainda na infância, o destino de Vlado havia sido marcado por outro regime totalitário, o da Alemanha nazista. Sua família judaica teve que fugir de Osijek, na época Iugoslávia (hoje Croácia) para escapar do antissemitismo imposto pela Alemanha no país. O país escolhido foi a Itália, os avós maternos do jornalista não conseguiram escapar e foram mortos em Auschwitz. Com o recrudescimento da guerra, a família resolveu abandonar a Europa e desembarcou de navio no Rio de Janeiro. Na década de 50, Vlado estudou Filosofia na USP e na década posterior, trabalhou em alguns documentários. Ele conhecera em 1962 a estudante de ciências sociais Clarice Chaves, com quem se casaria em fevereiro de 1964, com quem teve dois filhos.


Na atualidade


 O Instituto Vladimir Herzog (IVH) celebra a sentença rigorosa e justa divulgada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. ”A decisão da Corte, extremamente importante para a luta de Memória, Verdade e Justiça no Brasil, reconhece o caráter de crime de lesa-humanidade no assassinato de Vlado, o que o torna um crime imprescritível. Cabe ao Estado brasileiro assumir a sua responsabilidade e dar seguimento às medidas de reparação ordenadas pela CIDH, especialmente a retomada da investigação e do processo penal acerca dos fatos ocorridos em 25 de outubro de 1975. E cabe à sociedade civil cobrar com urgência do Supremo Tribunal Federal (STF) a reinterpretação da Lei de Anistia, confirmando a decisão da Corte de que não é aceitável a impunidade a torturadores e assassinos a serviço do Estado.É um processo imprescíndivel para que possamos virar esta página sombria de nossa história, que continua a se repetir nas mortes e torturas ainda hoje praticadas por agentes do Estado”, conclui o comunicado do Instituto Vladimir Herzog divulgado no último dia 05 de julho.


Fontes: O Globo e UOL

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